A Oração: Um Estudo de Caso em Antropologia Mimética

Este texto é o texto base para a 9ª sessão do curso “A vítima que perdoa”, o curso de introdução à fé cristã para adultos que venho elaborando nestes últimos anos. Espera-se o lançamento da versão em lingua inglesa do curso, em texto e video, para o 2º semestre de 2012, e tomara que em português pouco depois… Fico imensamente agradecido ao amigo Roldano Giuntoli por esta tradução que ele ofereceu para mim e para os meus leitores de lingua portuguesa.

PDF | Deutsch | English

 

1. Introdução

Uma das características mais estranhas daquela coleção de textos curiosamente sub-religiosa conhecida como o Novo Testamento é o quão pouco neles há sobre a oração. De fato, se considerarmos que a esmola, a oração e o jejum são em geral os pilares visíveis daquilo a que chamamos de “religião”, é estranho quão pouco o Novo Testamento se detém em qualquer um deles. A única parte em que todos os três são tratados com algum rigor está nos dezoito primeiros versículos do sexto capítulo do Evangelho de Mateus. E, ali eles se submetem, como espero lhes mostrar, àquilo que parece ser uma grosseira relativização. Eles estão completamente subordinados, e reinterpretados por uma penetrante compreensão da ação do desejo.

É tentador encarar isso como sendo algo próprio de Mateus, e assim, falarmos da maneira como “Mateus compreende o desejo”. No entanto, o mesmo entendimento pode ser encontrado em Lucas, e em João, assim como, em São Paulo. De fato, suspeito que aqui estejamos na presença daquilo a que René Girard [1] se refere no livro O Bode Expiatórioquando menciona os textos do Novo Testamento que dão testemunho de uma inteligência maior do que a de cada um dos (reconhecidamente altamente sofisticados) membros do círculo apostólico que os compuseram. O conceito da navalha de Occam [2] nos sugeriria que em última análise se trata da inteligência do próprio Senhor.

O que eu gostaria de fazer aqui seria mostrar com quanta acuracidade essa inteligência se manifestou na teoria mimética de Girard, ao mostrar o que acontece quando lemos alguns desses textos sobre a oração sob sua luz. Vocês verão quanta diferença isso faz comparativamente a uma leitura que depende de uma abordagem psicológica popular ao desejo.

Assim, façamos uma breve revisão dessas duas abordagens. Primeiramente a abordagem da psicologia popular, que às vezes eu caracterizo como sendo a compreensão do desejo da “bolha e da flecha”. Nessa abordagem, existe uma bolha localizada em algum lugar dentro de cada um de nós a que normalmente nos referimos como um “eu”. Essa entidade mais ou menos inflada é razoavelmente estável, e dela provém flechas que se destinam a objetos. Assim, “Eu” desejo um automóvel, um cônjuge, uma residência, férias, certas vestimentas específicas, e assim por diante. O desejo pelo objeto provém do “eu” que lhe dá origem, e assim, o desejo é autêntica e verdadeiramente “meu”. Caso eu deseje a mesma coisa que outra pessoa deseja, isso tanto pode ser um acidente, e deveremos racionalizar uma maneira de resolver qualquer conflito que possa surgir, ou pode ser o resultado da imitação que essa outra pessoa faz de meu desejo, que é claro é mais forte e mais autêntico do que seu desejo secundário e de menor valor. Uma vez que o meu “eu”, esse que deseja, é basicamente racional, entende-se que meus desejos também são basicamente racionais, e portanto, que eu não sou como aquelas pessoas que eu observo possuírem um padrão de desejo claramente patológico, com repetidas quedas por potenciais parceiros de tipo inadequado, batendo suas cabeças contra as consequências, ou presos a drogas ou padrões de comportamento que não lhes trazem bem algum. Essas pessoas estão doentes em algum modo, e seus desejos escapam à possibilidade do discurso racional. Ao contrário de mim e dos meus desejos.

Caso esta seja uma compreensão acurada da maneira como desejamos, então, é claro, o Novo Testamento é estranhamente bizarro e pouco acurado, pois tudo o que estaria fazendo, ao falar acerca da oração, seria nos incitar a nos agitarmos a nós mesmos (e como podería agitar o meu eu?) no sentido de querermos mais. Adicionalmente, seguindo esse ponto de vista, o NT incluiria as sementes da destruição de seu próprio ensinamento acerca da oração, pois no texto do Evangelho de São Mateus, que analisaremos com mais detalhe, aparece a frase:

Nas vossas orações não useis de palavras vãs, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes de lho pedirdes. (Mt 6, 7-8)

A conclusão lógica disso, com base na premissa da compreensão do desejo da bolha e da flecha, seria pararmos de orar. Literalmente não haveria sentido em expressar seu desejo, visto que ele é conhecido independentemente de sua expressão, e que sua expressão não faz nenhuma diferença. O texto do NT parece ser uma placa indicativa na rodovia que leva a esse moderno “eu” que é auto-suficiente e religiosamente indiferente.

Devemos também notar que, uma vez que o eu chega aos desejos sem necessidade de instrução ou intervenção externa e, que eles não precisam ser expressos para que sejam reais, essa auto suficiente, e auto disparadora “bolha” com as suas flechas, também tem caráter radicalmente privado. Parte da compreensão que a “bolha” tem de si é a de que ela possui um papel defensivo, que protege e oculta o “verdadeiro eu” e meu “verdadeiro desejo”, que estão sempre sob certa pressão de ameaça do mundo social fundamentalmente desonesto, o mundo do comércio, dos negócios, da política, e da guerra, no qual não há formas discursivas que sejam realmente verdadeiras. Assim, aquilo que digo em público, a maneira como ajo em público, e aquilo que digo que quero em público, são sempre uma certa forma de dissimulação, uma vez que apenas o “eu” privado é que é real. E, digna de nota, é a maneira miraculosa com que o texto do Novo Testamento, uma vez mais, manifestando-se prescindível, parece cortejar esse retrato do eu. Pois, se há um versículo que quase todas as pessoas parecem lembrar dessa parte de Mateus, é aquele onde Jesus, após haver depreciado as preces que os fariseus faziam em público para chamar a atenção, diz assim:

Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo: e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará. (Mt 6, 6)

Eis a aparente canonização, já presente na Escritura do moderno conceito do ‘eu’ individual e privado, que é, é claro, “espiritual”, mas não “religiosa”! Ora, vejamos se podemos resgatar esse texto do aprisionamento que lhe é imposto pela compreensão que a “bolha e a flecha” têm do eu, para aprendermos como ele nos questiona, em lugar de cortejar nossos preconceitos.

2. O Desejo de acordo com o outro

O entendimento do desejo que Girard defendeu por quase meio século, e que frequentemente é chamado de “mimético”, não poderia estar mais longe do quadro que acabamos de descrever. A sentença chave que nunca me canso de repetir é “Nós desejamos de acordo com o desejo do outro”. Trata-se do outro social, o mundo social que nos rodeia, que nos impele ao desejo, ao querer, à ação. Isso não parece particularmente desafiador, sempre que ilustrado na maneira com que a indústria do entretenimento cria celebridades, ou a propaganda profissional consegue tornar certos objetos ou marcas desejáveis. Porque poucos de nós são tão pomposos, a ponto de negar que de fato alguns de nossos desejos nos demonstram facilmente manobráveis e suscetíveis à sugestão. A coisa toda se torna bem mais desafiadora quando se afirma que, na realidade, não estamos falando de alguns de nossos desejos, mas de toda a maneira pela qual nós seres humanos somos estruturados pelo desejo.

O que Girard ressalta, é que os seres humanos são aqueles animais nos quais até mesmo os instintos biológicos fundamentais (que existem, é claro, e não são a mesma coisa que o desejo) são movidos pelo outro social, dentro do qual, nasce o corpo que sustenta o instinto. De fato, nossa capacidade de receber, e de lidar com nossos instintos nos é dada através da força que a atração partindo do outro exerce sobre nos, o que nos induz a viver como esse tipo de animal, por meio da reprodução dele mesmo dentro de nós. E, o que torna essa atração possível, é a capacidade altamente desenvolvida de imitação, o que distingue nossa espécie de nossos parentes mais próximos entre os símios.

Assim, em resumo: gestos, linguagem, e memória não são apenas “coisas” que “nós” aprendemos, como se houvesse um “eu” que estivesse aprendendo. Mais propriamente, seria o caso de que, através da atração imitativa deste corpo pela vida do outro social, gestos, linguagem e memória formam um “eu” que, de fato, é um dos sintomas, um dos epifenômenos, daquele outro social. Este “eu” é muito mais altamente maleável do que seria confortável admitir. Mais difícil do que isso, é o fato de que não é o “eu” que tem desejos, é o desejo que molda e sustenta o “eu”. O “eu” assemelha-se a uma fotografia, que dá em forma momentânea e fixa uma mostra dos relacionamentos que o pré-existem, dos quais é sintoma.

Esse quadro é altamente desagradável na medida em que parece desancorar o “eu” de um modo de ser confortável, sagrado e seguro, “algo basicamente bom em meio a um mundo algo duvidoso”. Em lugar disso, aponta para uma situação que nem é tanto a de estarmos flutuando em um oceano perigoso, mas sim a de que somos o oceano perigoso em que flutuamos. Nossos sistemas economicos, nossos conflitos militares, nossa vida erótica, nossas maneiras de mantermos a lei e a ordem, são todas partes umas das outras, operadas pelos mesmos padrões de desejo. Ou, em outras palavras, nós os seres humanos, não somos apenas levemente influenciados, mas na verdade somos dirigidos por uma cultura da guerra e da violência. Nos descobrimos como a espécie que atua em grupos para se afirmar por contraste com algum outro grupo convenientemente designado; e que depende de um contraste violento para sobreviver, e para definir valores e forjar a cultura.

Como vocês podem imaginar, a oração será algo diferente, caso este seja o tipo de animal que a esteja praticando. Porque, neste quadro, a oração se iniciará da pressuposição de que todos desejamos de acordo com o desejo do outro. Surgirá a questão: Sim, mas qual outro? Sabemos haver um outro social que nos confere desejo e nos impele nessa ou naquela direção. Mas, haveria Um Outro Outro, que não seja parte do outro social, e que tenha um padrão de desejo completamente diferente para o qual queira nos induzir? Essa, é claro, é a grande pergunta hebraica, a descoberta de Deus que-não-é-um-dos-deuses, e nossos textos acerca da oração são parte de nosso caminho para que nos tornemos parte da grande resposta hebraica.

3. Qual Outro?

Assimilamos o modelo de ”bolha e flecha” para o eu e o desejo, de maneira tão completa, que nos é difícil imaginar que os autores do Novo Testamento pudessem estar mais próximos do mundo daquilo que consideramos cultos animistas primitivos, do que do nosso próprio mundo. Pois no mundo dos cultos animistas, é perfeitamente óbvio para todos, que as pessoas são impulsionadas por aquilo que é diferente delas mesmas. De fato, em variados transes, ou danças em que os participantes são induzidos por uma mistura de ritmos e cânticos, “espíritos” “baixam” e “possuem” ou “cavalgam” os participantes, cuja conduta normal passa a ser temporariamente deslocada pela reconhecível personalidade pública do espírito em questão.

Isto posto, será talvez de interesse percebermos o quanto São Paulo está mais perto desse mundo do que nós podemos às vezes imaginar:

Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente ela. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo. Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera, não é esperar. Acaso aguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos.

Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis, e aquele que perscruta os corações sabe qual o desejo do Espírito; pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos. (Rm 8, 22-27)

Parafraseando: “Fazemos parte de um novo outro social que está sendo trazido à luz, dolorosamente, em meio à desintegração de um caminho-sem-saída do sermos humanos. Esse novo outro social está sendo trazido à luz através de nosso aprendizado a desejá-lo, que é algo que queremos, mas não sabemos como articular. A tensão existente entre dois tipos de outro social é absolutamente vital para nós; e, o que nos permite vivê-la é a esperança. Visto que não sabemos como desejar e expressar nosso desejo, o Espírito é um Outro outro que deseja em nosso interior, sem nos deslocar, de modo que na verdade seremos nós a ser trazidos à Nova Criação.”

Devemos notar o que Paulo e os animistas têm em comum: o entendimento de que somos mais sintomas do desejo alheio do que originadores do desejo. E, de que isso, em si, não é nem uma boa coisa, nem uma coisa má. É apenas aquilo que somos. A diferença entre os animistas e a questão hebraia não é se somos impulsionados por um outro, mas por qual outro somos impulsionados? Pois “espíritos”, ídolos e assim por diante, são meramente disfarces violentos pelos quais o outro social nos impele, de um modo que esses espíritos temporariamente nos deslocam, fazendo-nos agir “fora de nossa personalidade” e cair em armadilhas para nos tornarmos funções deles, usualmente exigindo sacrifício. Ao passo que o Espírito de Deus é o Espírito do Criador, e portanto, não é uma função de nada que existe, de nenhuma maneira. Muito ao contrário, tudo o que existe é uma função do Criador. O Criador não está em nenhuma espécie de rivalidade conosco, e assim ele pode nos impelir a partir de nosso interior, trazendo-nos à luz, sem nos deslocar.

Não nos deixemos enganar por um defeito de linguagem aqui: tradicionalmente nos referimos a espíritos que possuem pessoas, e, na palavra “possuir” existe uma nota de violência no que tange ao relacionamento entre o espírito e a pessoa possuída. Ao chegarmos ao Espírito Santo, nos referimos ao Espírito que nos habita, ou que estabelece sua moradia na pessoa, palavras sem qualquer conotação de violência. No entanto, notemos que o mecanismo humano de ser impelido é o mesmo em ambos os casos. A diferença está na qualidade do “outro” que nos impele.

Espero que agora estejamos em uma melhor posição para o entendimento de alguns dos textos do Evangelho sobre a oração.

4. A natureza pública do desejo

A primeira coisa que eu gostaria de apontar acerca deles é de que eles partem do pressuposto de que é pública a natureza da vida e dos relacionamentos humanos, incluíndo-se aí a oração. Como poderíamos esperar, em vista do entendimento do desejo que tenho procurado compartilhar com vocês, não se trata de haver duas realidades iguais e opostas entre si: quem eu sou em público, e quem eu sou na vida privada. Antes, trata-se do caso de que existe uma realidade: quem eu sou em público. A privacidade seria uma sub-seção temporária de um modo de ser essencialmente público. Jesus, e o Novo Testamento como um todo, simplesmente parte do pressuposto de que é pública a natureza da vida humana, seja religiosa, cultural ou política. Isto posto, torna-se mais plausível a compreensão do porque Jesus, em vários locais, se retira para orar. Tipicamente, estes momentos de retiro se dão imediatamente após uma grande interação com a população em seguida a um milagre. E, não é difícil entender o porquê. Qualquer líder, especialmente aquele que desfruta certo sucesso, corre o risco de ser infectado pelos desejos de seus seguidores, permitindo-se acreditar acerca de si mesmo, aquilo que os seguidores acreditam, e de ser lisonjeado a ponto de atuar segundo as projeções que o elevaram, tornando-se assim uma marionete dos desejos da multidão.

Sempre que Jesus se retirava para orar ele mostrava compreender sua necessidade de se desintoxicar do padrão do desejo que ameaçava controlá-lo: pessoas que queriam fazer dele Rei, ou proclamá-lo como Messias, de uma maneira que estava longe daquilo que ele tentava lhes ensinar. Ele estava familiarizado com aquilo que chamamos tentação: o risco de ser seduzido pelo outro social para um padrão de desejo que se apresenta sob o disfarce de ser bem, mas não é bem. Assim, ele precisava de tempo para fortalecer seu “eu” recebendo seu padrão de desejo de Um Outro Outro. Temos uma passagem clássica em que Jesus é tentado, e se recusa a ser enganado, quando ele diz a Pedro: “Arreda-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mc 8, 33). Ele rejeita a tentativa que Pedro faz de dissuadí-lo de entrar no caminho do sofrimento que o levará à morte. Pedro está ligado ao Tentador, a pedra que faz tropeçar, e a ele é dito que sua mente está disposta de acordo com a cultura dos homens, e não de acordo com a cultura de Deus.

Isto posto, voltemo-nos para o ensinamento explícito de Jesus acerca da oração, especialmente tal como o encontramos em Mateus 6, mas também com alguma referência a Lucas.

A primeira coisa que notamos é que os comentários de Jesus acerca da oração se fundamentam em um ensinamento sobre padrões de desejo.

“Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles. Do contrário, não recebereis recompensa junto ao vosso Pai que está nos céus. Por isso, quando deres esmola, não te ponhas a trombetear em público, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, com o propósito de ser glorificados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz tua direita, para que tua esmola fique em segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.” (Mt 6, 1-4) (meus itálicos)

Antes de começar a falar acerca da oração Jesus já demonstra um entendimento do desejo. Sua pressuposição é a de que somos todos pessoas imensamente carentes de aprovação ou recompensa. Ele não diz: “Na verdade, isso é muito infantil. Vocês não deveriam buscar aprovação ou recompensa. Cresçam e sejam indivíduos heróicos auto contidos e auto energizados, que agem em bases inteiramente racionais”. Ao contrário, ele parte do pressuposto de que nós necessitamos aprovação desesperadamente. A questão é: a aprovação de quem é que irá nos mover? O perigo de buscar a aprovação do outro social é o de que você a obtenha, e a partir de então você estará preso a essa aprovação. Ela literalmente lhe conferirá quem você é, e você se tornará aquilo. Você agirá de acordo com o padrão de desejo que o outro social lhe confere.

Eu costumava pensar que a frase “Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa”, especialmente quando verbalizada enfaticamente por um orador de orientação calvinista, era um eufemismo para mandar alguém para o Inferno. Todavia, ela faz muito mais sentido se vocês a encaram como uma observação antropológica: o problema de se buscar a aprovação do outro social, é o de que você o obtenha. Você agirá de modo a obter tal aprovação, e então se tornará sua marionete. E, por causa disso, você estará se vendendo barato. Você não estará desejando o suficiente, você terá desejado muito pouco. Seu “eu” será uma sombra daquilo que poderia ter sido, se você tivesse ouvido o chamado do Criador.

(Em um aparte: não seria interessante que Jesus tenha dado como exemplo de como se deve dar esmola algo que é fisiologicamente quase impossível? O que é que poderia significar, na prática, que a mão esquerda não saiba o que a direita está fazendo? Sugere o tipo de falta de coordenação pessoal, que só uma pessoa que não seja um eu estável, poderia fazer. Não tenho certeza com respeito àquilo que está sendo recomendado aqui, mas recebi uma dica do que poderia significar, não muito tempo atrás. Por algum tempo estivera atendendo pedidos de dinheiro que pareciam não ter fim de um amigo a quem eu dava apoio. Chegou um momento quando estava tentado a fazer umas contas para contabilizar o quanto eu havia lhe dado ao longo do tempo, como parte de uma tentativa de estabelecer parâmetros para o futuro de minhas doações e de nosso relacionamento. Graças a Deus, não sou um bom contador, mas em todo caso, a meio caminho de meu exercício de contabilização, eu me dei conta de que era como se eu estivesse agarrando minha própria generosidade, tentando fazer dela algo que pudesse me definir contra ele, de um modo que se tornava um elemento de barganha em um relacionamento. E, me dei conta também que naquele mesmo momento em que agarrava, aquilo que eu estava fazendo deixava de ser um ato de generosidade, e eu deixava de ser alguém através de quem a generosidade de UM Outro outro podia fluir.)

Quando Jesus se volta para a oração o entendimento do desejo é idêntico: o que as pessoas realmente desejam é aprovação, uma reputação específica aos olhos dos outros, e isso as leva a agir de maneira tal a obter tal aprovação; e, aí está o problema. Elas conseguem a aprovação, e com ela, elas recebem um “eu” que é função do desejo do grupo. O “fazer parte” e a “aprovação” seguem juntos. Incidentalmente, isso significa que daí em diante, é altamente improvável que alguém seja auto crítico no relacionamento com o grupo do qual faz parte. Eles concordarão em acobertar o que quer que necessite acobertamento seja neles, seja em outros membros do grupo, de modo a manter a unanimidade, e de modo a manter a própria reputação, ou seja, seu “eu”.

“E quando orardes, não sejas como os hipócritas, porque eles gostam de fazer oração pondo-se em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.” (Mt. 6, 5-6) Em vez disso, Jesus incita seus discípulos a receber seu “eu” de “Um Outro outro” (e o código de Mateus para “Um Outro outro” é “teu Pai, que vê no segredo” ou “vosso Pai que está nos céus”, ou seja, o Criador que de modo algum faz parte do dar e receber, do toma lá, dá cá, da reciprocidade do outro social). É curiosa a imagem utilizada aqui por Jesus, uma vez que, em sua maioria, nossas traduções se referem a um “quarto” a que devemos nos dirigir, e que por sua vez tende a ser associado com o nosso quarto de dormir, pressupondo-se que esse seja um local privativo. No entanto a palavra “ταμειον” pode ser traduzida de maneira mais acurada como “aposento de provisões”, despensa ou copa. Em uma casa do antigo Oriente Médio, este era o aposento mais interno à edificação, sem janelas. O propósito de um espaço como esse, em uma cultura que não possuía calefação, nem refrigeração, era o de assegurar que os alimentos perecíveis, nele estocados, fossem menos expostos às temperaturas extremas, sejam as altas ou as baixas. Também significava que, uma vez fechada a porta por dentro, você não poderia ver o exterior, nem ser visto.

Em resumo, aqui Jesus recomenda o equivalente psicológico do deslocamento fisiológico que vimos no exemplo anterior. Ele diz: “Você têm o vício de ser quem é aos olhos de um público que o adora, ou que o execra, não importa, uma vez que o amor ou o ódio da população conferem identidade de forma igualmente perigosa. Portanto, vá a um local onde você se força a uma desintoxicação do interesse daqueles que lhe conferem identidade, de modo que o Pai, que é o único a não fazer parte desse dar e receber, possa ter a oportunidade de lhe trazer a identidade à luz.”

5. A interface entre desejo e vozes

Ora, heis aqui o problema com o tempo na despensa, retirado dos olhos do público, privado do papel de diva. Gradativamente, você começa a perder “quem você é”. Você começa a viver num estranho lugar que eu chamo de interface entre seu “próprio” desejo, muito pequeno, que apenas tentativamente está sendo trazido à luz, tímida e algo envergonhadamente, e as vozes que lhe movem, e que fizeram de você um boneco tão perfeito de ventríloquo. Penso que meu caso não seja o único em que, após passar algum tempo a sós, ocasionalmente consigo identificar a pessoa que está falando por meu intermédio: a voz de meu pai, ou de minha mãe, ou de um diretor de colégio da minha juventude, ou algum professor a quem admirava, ou um líder político ou religioso. Em outras palavras, eu dera voz a algum padrão de desejo importado de alguém mais. E, é claro, fizera isso com toda a convicção de que era realmente eu quem falava e desejava.

E, esse pode se constituir num momento muito chocante, na medida em que me dou conta quão facilmente me permiti colocar de lado, e até mesmo passar por cima, de quaisquer delicadas sugestões que estivessem me puxando em direções menos estridentes, tendo em vez disso me jogado de cabeça na direção do primeiro personagem que parecesse me dar a oportunidade de ser alguém que faz diferença. Só com o tempo dispendido na despensa é que poderei descobrir que o Uno que me vê em segredo está de fato chamando por um muito diferente e mais rico conjunto de desejos, isento de uma fácil e apertada camisa de força como é o meu presente personagem. Além disso, o Uno que vê em segredo parece estar com muito menos pressa de que eu “fuja da vergonha” ou que “esteja à altura” do que eu normalmente estou.

Imagine, se puder, uma cena infantil. Joãozinho está prestes a ir para a cama. Mamãe vem para puxar os lençóis e diz “Joãozinho, você recitou suas preces?”, “Sim, mamãe”. “Bom, Joãozinho. E, o que você pediu em suas preces?”, “Eu pedi … pudim de chocolate para amanhã, e para que o Corínthians ganhe no Sábado”, “Oh não, Joãozinho, você não deve pedir pudim de chocolate para amanhã, e para que o Corínthians ganhe no Sábado. Você deveria rezar pelo fim do sofrimento no Oriente Médio, pelo alívio da fome em Bangladesh e pelas intenções do Santo Padre para as missões no mês de Maio!”. Bem, é claro, Joãozinho importará isso. Desprezaram seus pequenos desejos de cheiro inconveniente, de lá do alto, e lhe ensinaram a desprezá-los e, em seu lugar, a querer coisas muito mais “nobres”, coisas que o farão parecer alto em meio ao mundo de seus familiares. De fato, ensinaram-lhe o Evangelho de São Mateus ao contrário: deseje de acordo com o outro social de modo a obter aprovação.

Aqui está: Joãozinho está na pista de alta velocidade para se tornar um perfeito puritano, um morador de um mundo em que há coisas que são bonitas, mas perversas, coisas que a pessoa quer, mas não deveria admitir, mas um mundo em que também há coisas que são boas, mas entediantes, que a pessoa na realidade não quer, mas que deveria no mínimo dizer que quer.

O que é curioso é que, se devemos acreditar no Evangelho, esse é o padrão inverso do que Deus quer. Nos pareceria que “Teu Pai que vê em segredo” não despreza nossos pequenos desejos de cheiro inconveniente, e de fato, sugere que, se apenas pudéssemos nos agarrar a eles, e insistir na sua articulação, iríamos descobrir por nós mesmos, com o passar do tempo, que desejamos mais do esses desejos, mas nós realmente desejamos algo apaixonadamente. Em outras palavras, ele nos aceita seriamente com nossa fraqueza e pouca importância, até mesmo quando nós não o fazemos. Caso aprendamos a dar alguma voz a aqueles desejos, então, existe uma possibilidade de que, com o tempo, poderemos ser impulsionados através deles de maneira orgânica, até que nos descubramos com enormes desejos de quem se dedica inteiramente aos trabalhos de paz do Oriente Médio, ou ao alívio da fome de Bangladesh, ou mesmo de quem é o tipo de missionário por quem o Santo Padre quer que as pessoas rezem em Maio. Todavia, estaremos fazendo isso porque nós, que começamos sem na realidade saber o que queremos, sem desprezar nossos pequenos desejos, e aprendendo a articulá-los, descobrimos em nosso interior que é isso o que realmente desejamos. E, em nosso desejo estará quem passamos a ser.

6. A viúva importuna

Antes de voltarmos a nosso texto de Mateus, darei mais um par de exemplos do padrão de desejos que os textos do Evangelho sobre a oração nos apontam, pois eles se adaptam bem a essa despensa em que nos encontramos na interface entre nossos desejos e nossas “vozes” internas: as vozes do outro social que internalizamos. Aqui temos o modelo que Jesus nos apresenta para a oração no Evangelho de Lucas: uma viúva importuna. (Lc 18, 1-8)

“Contou-lhes ainda uma parábola para mostrar a necessidade de orar sempre, sem jamais perder coração.”

Ok, façamos uma pequena pausa, sem perder de vista a idéia. À primeira vista isso soa como se Jesus estivesse aconselhando a não desencorajar. Gostaria de sugerir de que há aí algo mais do que isso. Trata-se da maneira pela qual, de fato, nos será dado um coração, um ser, através do processo de nos tornarmos desejosos insistentes. Ele disse:

“Havia numa cidade um juiz que não temia a Deus e não tinha consideração para com os homens.”

Notemos que esse juiz é uma pessoa perfeitamente não-mimética. De fato, ele mais se parece a um bloco de concreto, do que a uma pessoa, uma vez que ele não pode ser impulsionado nem pelo outro social, nem pelo Outro outro.

“Nessa mesma cidade, existia uma vúva que vinha a ele, dizendo: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário!’”

Agora temos uma pessoa inconveniente, aquele tipo de pessoa que não tem ninguém que a possa representar, que não é tratada com elevada consideração, e cuja satisfação não tem importância para aqueles que vivem na cidade. Ela é o equivalente ao pequeno desejo de cheiro inconveniente. Mas, ela é persistente, e só insiste em sua demanda.

“Durante muito tempo ele se recusou. Depois, pensou consigo mesmo: ‘Embora eu não tema a Deus, nem respeite os homens, contudo, já que essa viúva está me dando fastio, vou fazer-lhe justiça, para que não venha por fim esbofetear-me’”.

O juiz possui um nível invejável de conhecimento de si-mesmo, pois ele compreende perfeitamente bem que ele é um bloco de concreto, hermeticamente fechado e imune à influência mimética. Mesmo assim, ele afinal cede, desejoso de evitar uma sova das mãos dessa temível viúva. Eu digo “sova”, pois a palavra “υπωπιαζη”, que traduzimos por esbofetear, era aparentemente a linguagem da arena da luta livre, ou do ringue de boxe.

“E o Senhor acrescentou: ‘Escutai o que diz esse juiz iníquo. E Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite?”

Será que Jesus realmente pensa que Deus se assemelha a um juiz iníquo? É claro que não. Todavia, ele sabe o quanto todos nós tendemos a possuir um juiz iníquo bem instalado em nossa consciência. De fato, como parte de nossa socialização, adquirimos uma voz ou um conjunto de vozes que parecem ser completamente refratárias a qualquer coisa. Caso sejamos atrevidos o suficiente para querer algo, essa voz, ou vozes, rapidamente nos enviará pequenas mensagens: “se eu fosse você, não iria querer isso”, Melhor não querer demais, de modo a não se desapontar”, ou então “isso não está acima do nosso nível?” ou, tal como na famosa cena de Oliver Twist “Mais?!!”. O objetivo dessas mensagens é o de encerrar nosso desejo, de nos fazer mascarar nosso descontentamento em permanecer meras marionetes de nosso grupo. Nosso juiz iníquo é interno a cada um de nós, um carrancudo “não” em face de nossa potencial felicidade.

No entanto, o que Jesus recomenda é uma longa e persistente recusa em abrir mão de nossos pequenos desejos de cheiro inconveniente. Em vez disso, empenhar-se em um constante embate tipo guerrilha de desejos, de modo que afinal, até mesmo o bloco em nossa cabeça comece a ceder, e o que é correto para nós comece a se tornar imaginável e alcançável. Deus não se assemelha ao juiz, um bloco hermético, ele se assemelha ao desejo irritante que se torna cada vez mais forte. Apenas através de nosso desejar algo, é que Deus o pode dar a nós.

“Mesmo que os faça esperar? Digo-vos que lhes fará justiça muito em breve. Mas quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?”

Curiosamente, ao final de seu ensinamento, Nosso Senhor demonstra certa ambivalência a nosso respeito: a imaginação e o desejo se alimentam um ao outro positivamente, e este é um elemento vital da fé: tornar-se capaz de imaginar algo de bom, e assim desejá-lo, e então, na medida em que o desejamos mais, descobrir ser mais possível imaginá-lo mais completamente. Aqui ele parece estar cônscio de que apesar daquilo que ele procura implodir em nosso meio, é amedrontadoramente provável que nos contentemos com muito pouco, concordando com nossos juizes iníquos internalizados, e assim, não ousar imaginar uma bondade que poderia ser nossa, e portanto não ousar desejá-la, sem falar em nos tornarmos atletas de um desejo unívoco que quebra todos os marcos referenciais dos nossos sistemas. Ele quer saber se nós realmente nos permitiremos receber um coração.

Antes de seguirmos além dessa imagem, eu gostaria de ressaltar uma importante parcela do caminho pelo qual o novo “eu” do desejo é trazido à luz. Ou seja, por meio de repetir “eu quero”. Notemos que essa simples ação de repetir algo, e de fato repetí-lo frequentemente, é, psicologicamente, muito mais importante do que parece. Pois, não é que exista um “eu” que possua esse ou aquele desejo, que agora se expressa. Antes, por entre os padrões do desejo que controlam este corpo, este corpo tem a humildade de reconhecer que precisa ser trazido à luz, sendo dirigido de uma certa maneira, de modo tal que é como se aceitasse um compromisso com um certo tipo de chegar a ser. “Eu” concordo que, em minha maleabilidade, o desejo de acordo com o outro, que me precede, e que concordo em trazer a bordo comigo, irá me trazer à luz. A linguagem torna isso público, o que afinal pode ser razão de tamanho alívio, ser capaz de dizer “eu quero isso e aquilo”, até mesmo “privativamente”, porque dizer isso me envolveu na resolução da vergonha de ser descoberto como sendo o tipo de pessoa que desejava tal coisa.

Um par de exemplos finais do Evangelho no ensinamento do mesmo padrão de desejo, com respeito à oração. Em Lucas 6,28, lemos:

“Bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam.”

Espero que agora faça muito mais sentido o porquê essa não é uma maneira de dizer “Jesus quer que eu seja um capacho”. Ao contrário. Jesus sabe muito bem como nos tornamos intimamente envolvidos com aquela subseção do outro social que são os nossos inimigos exatamente da mesma maneira como nos tornamos intimamente envolvidos com aqueles cuja aprovação buscamos. Ele sabe quão vulneráveis somos em trazer a bordo nossos inimigos, tornando-nos iguaizinhos a eles ao atuarmos de maneira recíproca em relação a eles. Assim, ele nos oferece esta receita para a liberdade: não se permitam serem controlados por aqueles que lhes fazem o mal. Isto envolve uma recusa ou reciprocidade negativa, e um aprendizado de se movimentar a partir do coração em direção a eles de uma maneira que não tem nenhuma relação com aquilo que eles lhe fizeram. De fato, ele está dizendo “saia do padrão de desejo pelo qual você está escravizado, e persegue, seus inimigos e, em lugar disso, entra arduamente na direção de um padrão de desejo tal que você não esteja contra eles de nenhuma maneira, mas seja capaz de estar, assim como Deus está, a favor deles, sem ser seu rival”.

Caso você esteja pensando que estou inventando isto, a versão de Mateus sobre o mesmo ditado é perfeitamente instrutiva:

“Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos.” (Mt 5, 44-45) (itálicos meus)

O arrazoado para orarmos por quem nos persegue foi colocado claramente: de modo a nos tornarmos parte do padrão de desejo do Outro outro, que não é parte da reciprocidade, do toma lá dá cá, do bem e do mal do outro social, mas está inteiramente fora disso, sem rivalizar com isso, e perfeitamente generoso em direção a isso.

7. Enxergando-me através dos olhos de Um Outro

Recuemos agora, na direção de nossa despensa ou copa, para refletirmos um pouco mais sobre a estranheza desse local da interface entre o nosso desejo e as vozes que nos controlam. Até aqui enfatizei o negativo, a ruptura, aquilo do qual estamos sendo afastados, a maneira pela qual temos sido controlados pelo interesse do outro social. Notemos não haver alternativa no sentido de sermos controlados pelo interesse de um outro. Não se trata de arrancarmos os falsos eus que nos foram conferidos pelo outro social, e que ali, embaixo de tudo, radiantemente, lá estará nosso verdadeiro eu, desembaraçado pelo outro social. Não, nós sempre recebemos nossos eus através dos olhos de um outro. O assunto verdadeiramente difícil da oração é o de aprender a receber nossos eus através dos olhos de Um Outro outro. Com o que é que poderia se parecer, ser observado por Um Outro outro? O que é que aquele olhar nos diz sobre quem nós somos, e quem estamos nos tornando?

Minha sensação é a de que o colapso do “eu de desejo” que se inicia quando saímos do olhar do outro social, é muito mais fácil de notar do que o chamado à existência, muito mais quieto e mais imperceptível, de um novo eu-de-desejo, sem nenhum opositor conspícuo, ou elementos agarrados do eu, encharcadas com os tipos errados de significado. Todavia, aqui o trabalho da imaginação tem seu lugar apropriado, tal como o do apelo de Jesus no exemplo da viúva importuna. Pois é ao expandirmos os limites de nossa imaginação formada pelo outro social que nós podemos capturar vislumbres de estarmos sendo observados pelo Uno que não é parte disso, de maneira alguma.

O que significa, por exemplo, a imortalidade de Deus? E, aqui não me refiro às associações usuais que vêm com “imortalidade” ou “eternidade”, que significam algo como invulnerabilidade, ou algo que perdura por um longuíssimo tempo. Antes, parte do que queremos significar quando dizemos que estamos sendo observados por Deus, é que estamos sendo objeto do interesse de alguém que é αθανατος, imorredouro. Alguém, para quem, ao contrário de qualquer pessoa que conheçamos, ou jamais tenhamos conhecido, a morte não é um parâmetro, uma realidade, um limite, uma circunscrição. Alguém, portanto, para quem a mortalidade, a existência em tempo limitado, nossa realidade, parece completamente diferente. Alguém que pode nos pedir para agir como se a morte não existisse. Este é o tipo de interesse que pode sugerir em nós a possibilidade de acreditar que vale a pena empreender projetos cujos frutos poderemos não ver. O tipo de interesse que tem tão pouca pressa a ponto de não se importar com meu fracasso, que me dá poder para compartilhar o espaço daqueles que são menosprezados porque seguro acerca de minhas expectativas de longo prazo. Trata-se do tipo de interesse para quem a famosa frase de Keynes “a longo prazo, estaremos todos mortos”, simplesmente Não faz sentido, pois o único longo prazo que existe é aquele em que a morte não incide.

Ou, de outro modo, o que significaria ser observado através de olhos que só conhecem a abundância, para quem a escassez simplesmente não é uma realidade, para quem há sempre mais? Pense na ruptura que isso produz em meus padrões de desejo! “Se você quiser mais, não haverá o suficiente para todos”, ou, “não há refeição gratuíta nos confins do universo”, ou, “agarre o que puder, antes que tudo se acabe”, ou apenas uma expressão deprimida de desapontamento com as coisas, com a vida, e assim por diante, sem que se alcancem as expectativas, a maneira de ser no mundo e de perceber todas as coisas a que os antigos hebreus se referiam como vaidade, ou futilidade. Com o que se parece passar o tempo sob o olhar do Uno para quem não é, como todo nosso sistema capitalista pressupõe, a escassez que leva à abundância por meio da promoção da rivalidade, que nós então abençoamos e denominamos competição? Antes, trata-se de uma abundância criativa altamente desocupada, que é a realidade subjacente, e um infindávelmagis, “mais”, está sempre a caminho.

Com o que se parece passar o tempo sob o interesse do Uno para quemousadia e aventura, e não medo e cautela, são subjacentes a todo o projeto da criação, para quem todas as coisas que são, são abertas em suas extremidades e apontam para algo mais que elas mesmas, e para quem somos convidados a compartilhar a excitação e as emoções do Outro, a querer e a alcançar coisas loucas e inimagináveis?

Com o que se parece sentarmo-nos sob um interesse que repercute em nós “algo a partir do nada, algo a partir do nada”? Nosso padrão de desejo diz “unnhh, nada pode provir do nada” e sente muito por si mesmo. No entanto, o fulcro da diferença entre o ateísmo e a crença em Deus que não é um dos deuses não é uma ideologia, mas um padrão de desejo que emociona no sentido de um “algo a partir do nada”. Os maravilhosos versos do dêutero Isaías, com o frescor da grande ruptura para o monoteísmo estrito no sexto século a. C. proclamam isso:

“Ah! todos que tendes sede, vinde à água. Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão. e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda a atenção e comei o que é bom; deleitar-vos-ei com manjares revigorantes. Escutai-me e vinde a mim, ouvi-me e vivereis. Farei convosco uma aliança eterna, assegurando-vos as graças prometidas a Davi.” (Is 55, 1-3).

Esta é uma definição de Deus muito distante do padrão de desejo que nos é inculcado pelo outro social: “algo a partir do nada”.

Bem, esses termos (imortalidade, abundância, ousadia e algo a partir do nada) são apenas alguns dos tipos de frases com que as Escrituras procuram cutucar nossa imaginação para que nos submetamos a um interesse que não é o interesse do outro social, um interesse que possui um pedido, uma saudade, um coração que está a nosso favor, muito mais a nosso favor do que nós estamos a nosso próprio favor, um interesse do qual podemos acreditar abrigar em seu coração nosso bem a longo prazo. E. em cada um desses casos, submeter-se ao interesse do Outro outro, trabalhará para produzir em nós um modo de ser público, que parece ir diretamente contra as expectativas dos padrões de desejo que o outro social em nós produz. A abstração temporária de nossa vida pública não nos terá tornado privados. Nos terá conferido poder para estarmos publicamente presentes, de uma nova maneira, cuja precariedade e vulnerabilidade repousam em uma inimaginável segurança.

8. “Leaving Las Vegas”? Não!

Voltemos então, finalmente, a Mateus, e à conclusão das observações que Jesus faz com respeito à oração. Espero que agora elas soarão algo diferentemente:

“Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedires.” (Mt 6, 7-8).

Lembro-me de estar em pé sobre uma colina por sobre o lago Titicaca, observando os Yatiris do local, xamãs ou sacerdotes, dobrando seus artigos. Podia-se ir até eles e, mediante uma oferenda adequada, eles acenderiam velas em volta de altares portáteis, queimariam incenso, e recitariam as necessárias preces ou encantamentos, que eram uma surpreendente mistura de latim, quechua, aymara e espanhol. As preces ou encantamentos se destinavam a uma lista bastante repetitiva de coisas: proteção contra o mau olhado do vizinho, enriquecimento rápido, morte de uma sogra problemática, fazer com que um(a) parceiro(a) relutante se apaixonasse, variadas formas de vingança.

O padrão parecia ser simples: Deus, ou os deuses, são uma espécie de máquina caça níqueis de Las Vegas, cheia de estupendos prêmios, mas inclinada a ser pão dura. Assim, a oração seria a arte de conjurar essa divindade caprichosa, com as frases precisamente corretas, exatamente repetidas o número certo de vezes, para que compartilhe algo de seu tesouro. Como se o sacerdote fosse um manipulador particularmente experimentado da alavanca da máquina caça-níqueis, alguém que pudesse assegurar que três limões, ou cinco barras, se alinhassem e assim manipulasse a divindade de modo a expelir suas riquezas.

Isso pressupõe um padrão de desejo em que nós somos sujeitos que estamos no comando, e Deus é um objeto que precisa ser manipulado: estamos de volta à representação do desejo da bolha e da flecha. Aquilo que Jesus ensina é exatamente o inverso disso. Na representação de Jesus, Deus é o sujeito, quem possui um desejo, uma intenção, uma saudade, e que sabe quem somos, e o que é bom para nós, e nós que somos as máquinas caça-níqueis caprichosas, e algo inertes, cujas alavancas são sempre acionadas pelos jogadores errados. Nessa representação, é precisamente porque nosso Pai sabe do que temos necessidade antes de lho pedir, que precisamos aprender a rezar: o único acesso que nosso Pai tem a nós, a única maneira que ele tem de alcançar a alavanca de nossa máquina caça-níqueis, é o nosso pedido de que ele entre em nosso padrão de desejo.

Vocês se lembram que com o entendimento do desejo da bolha e da flecha, a frase de Jesus sobre “vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedires” funciona como uma maneira de tornar a oração sem sentido. No entanto, com o entendimento mimético do desejo, que eu espero ter mostrado estar em operação ao longo dessa passagem, a mesma frase funciona de maneira exatamente oposta. Torna-se a razão urgente pela qual precisamos rezar: de modo a permitir que o Uno, que sabe o que é bom para nós, ao contrário do que ocorre com nós mesmos, cujo desejo está a nosso favor e a favor do nosso desfrute, ao contrário do outro social e de suas violentas armadilhas, ganhe acesso para nos recriar a partir de nosso interior, nos dê um “eu”, um “eu” de desejo que é de fato um fluxo constante de tesouros. Estaremos, na verdade, pedindo para nos tornarmos um sintoma de seu padrão de desejo, em vez daquele do outro social que nos limita de modo a nos tornarmos muito menos.

9. Observações Finais sobre o Pai Nosso

É com isso, então, que Jesus conduz ao ensinamento do “Pai Nosso”.

“Portanto, orai desta maneira: Pai nosso que estais nos céus, santificado seja o teu Nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, na terra, como no céu. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos submetas à tentação, mas livra-nos do Maligno. Pois, se perdoardes aos homens os seus delitos, também vosso Pai celeste vos perdoará; mas se não perdoardes aos homens, vosso Pai também não perdoará vossos delitos.” (Mt 6, 9-15).

Limitações de espaço e tempo não me permitem fazer uma leitura disto linha por linha. Para o nosso propósito, basta-me ressaltar dois pontos que espero sejam óbvios. Primeiro, que o Pai Nosso tem tudo a ver com o desejo. Ele começa dirigindo-se ao Outro outro que se manifesta a si mesmo, que possui um desejo, uma intenção, um projeto e uma realidade que têm muito mais prioridade do que qualquer coisa que o outro social conhece e que, no entanto, pode começar a incidir na vida do outro social. E, em segundo lugar, parte desse pressuposto, e ressalta, o fato de que somos animais inteiramente miméticos. A bondade do Outro outro em nós só pode ser livre, fluir através de nós, na medida em que nós concordemos em ser livres para com nossos co-membros do outro social. Assim como nossos “eus” são o que são, inteiramente graças ao outro social, assim também nossos “novos eus” apenas serão “novos eus” na medida em que libertarmos o outro social. Será estritamente em nossa relação com o que extrapola a nós mesmos, que nosso existir será descoberto. Notemos que isso, a insistência de que soltar o outro social, e ser soltado pelo Outro outro, é exatamente a mesma coisa, é a única parte do Pai Nosso que Jesus repete, uma vez mais esfregando na antropologia fundamental.

Espero, portanto, que vocês concordarão que “o desejo de acordo com o desejo do outro”, e o funcionamento mimético mecânico e absoluto de nosso desejo não parecem ser uma adição estranha a esses textos, mas oferecem uma rica leitura dos mesmos, que flui com eles, e pode nos ajudar a nos encontrarmos no interior da aventura da oração.

São Paulo, Fevereiro de 2009

Endnotes

[1] N.T.: René Girard (nascido em Avinhão-França, em 25 de dezembro de 1923) é um filósofo, historiador e filólogo francês, e atualmente é professor de literatura comparada na Universidade de Palo Alto, Califórnia, EUA. Girard é conhecido por suas teorias que consideram o mimetismo a origem da violência humana que desestrutura e reestrutura as sociedades, fundando o sentimento religioso arcaico. Ele se auto-define como um antropólogo da violência e do simbolismo religioso. Alguns o consideram o "Darwin das ciências humanas". Por meio de seus trabalhos de antropologia, ele teorizou o que é considerado uma de suas grandes descobertas: o mecanismo da vítima expiatória, segundo ele um mecanismo fundador de qualquer comunidade humana e de qualquer ordem cultural: quando o objeto de desejo é apropriável, a convergência dos desejos conflitantes em sua direção engendra a rivalidade mimética que é a fonte da violência. No grupo primitivo, esta violência, por paroxismo, se focaliza numa vítima arbitrária cuja eliminação reconcilia o grupo. Esta vítima chega, para Girard, a ser sagrada e constitui a gênese do sentimento religioso primitivo, do sacrifício ritual como repetição do evento originário, do mito e dos interditos. A obra de Girard desafia manifestamente a de Sigmund Freud no campo do desejo, bem como a de Claude Lévi-Strauss no que se refere à interpretação dos mitos, e a de Karl Marx quanto ao determinismo econômico.

[2] N. T.: A Navalha de Occam é um princípio lógico atribuído ao frade Franciscano inglês William de Ockham (século XIV). O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do fenômeno e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria. Esta formulação é muitas vezes parafraseada como "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor". Originalmente um princípio da Filosofia Reducionista do Nominalismo, é hoje tido como uma das máximas heurísticas (regra geral) que aconselham economia, parcimônia e simplicidade, especialmente nas teorias científicas.


© 2009 James Alison